Lucchesi
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Complexo de vira-lata

Brasileiro adooora falar mal do Brasil…

Imagem de Unsplash.

Nelson Rodrigues chamou de “Complexo de Vira-Lata” esse hábito que o brasileiro tem de enaltecer tudo que é gringo, ignorar todos os problemas que eles têm e só enxergar coisa ruim no Brasil.

Se você me segue no Instagram, você sabe que eu acabei de voltar da Itália. Se não, corre lá que os stories ainda estão em destaque.

Roma, Florença, Veneza e Verona são cidades lindas que, se você tiver a oportunidade de conhecer, só vai. Mas nem tudo são flores (ou estátuas) por lá.

A falta de educação das pessoas é generalizada. Você vai almoçar e é tratado como se o restaurante tivesse fazendo o favor de te servir.

Ah, mas é o jeito deles. Na Europa eles são assim mesmo, mais ‘diretos’, sabe?

Aí tu vai pegar um trem, tá aquela sovaqueira. Um cê-cê tão forte que chega a dar dor de cabeça (sem exagero).

Ah, mas é a cultura deles. A gente é que devia parar com esse negócio de tomar banho todo dia. Pra quê, né?

Aí tu vai pedir uma informação e recebe uma cara de bunda maior que a de qualquer funcionário público que dorme há 3 dias com a mesma calça jeans.

Ah, mas a gente que tá no país deles, né? A gente que tem que se adequar. Da próxima vez a gente decora o mapa da cidade antes.

Enfim, é nítido o desprazer que a galera tem em te servir lá. Do aeroporto ao hotel, da praça ao museu, do trem ao táxi. Isso sem contar a quantidade de bitucas de cigarro espalhadas pela cidade, o desrespeito às faixas de pedestres, o constrangimento causado pelos vendedores na rua e os famosos pickpockets (batedores de carteira).

Mas a gente viaja pra lá mesmo assim, aceita tudo pianinho e ainda acha o máximo a experiência. “Estamos na Europa, meu filho!”.

Sapo de gringo é fácil de engolir. No Brasil é que a gente fica ofendidinho com tudo.

À propósito, minha crítica não é ao povo europeu, não estou reclamando da viagem que fiz, nem quero te desencorajar a conhecer esses lugares. Pelo contrário, minha crítica é à patifaria de alguns brasileiros que saem do Brasil e, de repente, deixam de ser vítimas resmungonas e passam a respeitar regras e instituições.

Eles idealizam tanto a vida lá fora que acabam não percebendo ou fazem vista grossa aos problemas que, pasmem, existem em todo lugar!

Não quero comparar o Brasil com a Europa. Sei muito bem que os problemas que citei chegam a ser banais perto dos problemas que enfrentamos aqui. Mesmo assim, eles servem para ilustrar a mentalidade perdedora que muitos brasileiros têm.

Este texto, por exemplo, escrevo do avião, enquanto encaro as dezenas de chicletes grudados em todas as três cadeiras a minha frente.

Por que não fazemos isso lá fora, mas fazemos aqui no Brasil?

Não consigo entender. Simplesmente, não consigo.

É por isso que é, no mínimo, uma injustiça com os viras-latas querer colocar na conta deles nossas síndromes de autoestima, mau comportamento e mau-caratismo.

Quem já teve um vira-lata sabe que a maior característica deles é a lealdade.

Um vira-lata não dá as costas pra você pela ração do vizinho. Ele não muda de comportamento quando sai pra passear em outro lugar. Ele extrai o melhor de você, não o pior. Um vira-lata é, na verdade, o oposto do brasileiro.

Como eu disse, eu escrevi este texto voltando para casa, em um momento decisivo para o Brasil. Estamos há um dia das eleições. Amanhã temos a oportunidade de, com nossas escolhas, dar ao Brasil uma nova esperança.

Não sei se você entende a dimensão do momento que vivemos, mas desejo profundamente que você vote com o coração de um vira-lata. Um vira-lata que ainda acredita que o Brasil tem jeito. Um vira-lata leal, que se levantará contra os sanguessugas que destruíram nosso país nos últimos anos.

É óbvio que a resposta para o Brasil não está em um governante, mas seu voto amanhã carrega uma mensagem. E a sabedoria diz que somente um tolo esperaria resultados diferentes fazendo as mesmas coisas (ou votando nas mesmas pessoas).